Pergunte a um dono de restaurante quanto ele gastou com entrega no mês passado e ele responde. Pergunte quanto custa uma parada e a conversa muda de tom.
O número importa porque quase toda decisão do dia depende dele: aceitar ou não o pedido do bairro vizinho, cobrar quanto de taxa, contratar o segundo entregador, aceitar o convite daquele aplicativo que fica com 25%. Sem custo por parada, todas essas decisões são chute.
A conta tem três camadas, e elas se comportam de formas diferentes.
Camada 1: tempo (a que manda)
O entregador é pago por tempo, não por quilômetro. Então o que interessa é quantos minutos uma parada consome, do momento em que ele sai da base até estar livre para a próxima.
Esse tempo tem duas partes que precisam ser medidas separadamente:
- Deslocamento — o trajeto entre uma parada e a seguinte.
- Atendimento — estacionar, achar o apartamento, esperar a portaria, entregar, receber, dar troco, marcar como entregue.
A segunda parte é a que quase ninguém mede, e em rota urbana densa ela costuma ser comparável à primeira. É também a única que você consegue reduzir sem mexer na cidade.
Aqui está o deslocamento de uma rota real que medimos:
São 3,97 km e 5,7 minutos de deslocamento por parada. Guarde esses dois números: eles voltam nas contas abaixo e são a única coisa aqui que não é suposição.
Camada 2: distância (a que todo mundo lembra)
O veículo custa por quilômetro rodado: combustível, óleo, pneu, corrente, revisão e depreciação. O erro comum é olhar só o combustível, que costuma ser menos da metade do custo real por quilômetro de uma moto em operação intensa.
Monte o seu número assim: pegue tudo que você gastou com o veículo nos últimos doze meses — inclusive as duas trocas de pneu que você já esqueceu — e divida pela quilometragem do período. É trabalhoso uma vez e depois é só atualizar.
Camada 3: custo fixo rateado
Aluguel do ponto não entra (ele existiria sem entrega), mas o que existe por causa da entrega entra: chip e plano de dados, bag térmica, o software.
Sobre o software, temos os dois lados do número, então vale mostrá-los:
Do lado de quem assina: R$ 49 por mês diluídos em 600 entregas dão R$ 0,08 por entrega. Esta é a parte da conta em que a gente tem interesse comercial, então vamos ser diretos: o software não é o que encarece a sua entrega. O que encarece é o tempo de uma pessoa na rua.
A conta, junta
Juntando as três camadas com a rota medida e com suposições que você deve trocar pelas suas:
| Componente | Como sai | Exemplo |
|---|---|---|
| Deslocamento por parada | medido | 5,7 min · 3,97 km |
| Atendimento por parada | suposição sua | 4 min |
| Tempo total por parada | soma | 9,7 min (0,162 h) |
| Custo do entregador | suposição sua | R$ 20/h |
| Custo de tempo | 0,162 × 20 | R$ 3,23 |
| Custo por km do veículo | suposição sua | R$ 0,50/km |
| Custo de distância | 3,97 × 0,50 | R$ 1,99 |
| Software rateado | R$ 49 ÷ 600 entregas | R$ 0,08 |
| Custo por parada | soma | R$ 5,30 |
Três leituras saem daí:
- Tempo é 61% do custo. Distância é 38%. Software é 1,5%. Se você vai otimizar uma coisa, otimize minutos.
- Reduzir 1 km por parada economiza R$ 0,50. Reduzir 2 minutos por parada economiza R$ 0,67. Dois minutos a menos na porta valem mais que um quilômetro a menos na rua — e são bem mais fáceis de conseguir.
- A taxa de entrega que você cobra tem que caber acima de R$ 5,30, não acima da gasolina.
Quatro erros que estragam o número
Ratear o custo fixo pelo dia cheio. Se você divide o mês pelo melhor dia, o custo por parada fica lindo e falso. Divida pelo total real de entregas do mês, incluindo terça-feira chuvosa.
Usar distância em linha reta. O mapa mostra 800 metros, o entregador roda 2,5 km porque tem uma avenida de mão única no meio. Custo se calcula com distância de rota, não com distância de régua.
Ignorar o trecho da base até a primeira parada. Ele existe em toda saída e não entrega nada. É por isso que rota de 5 paradas tem custo por parada menor que rota de 2: o trecho morto se dilui.
Deixar a reentrega de fora. Cliente ausente, endereço errado, produto recusado. Cada uma dessas consome o ciclo inteiro e ainda gera outro. Meça a sua taxa durante um mês antes de estimá-la — a estimativa costuma ser otimista.
Como medir sem virar analista
Você não precisa de planilha nova. Precisa de três registros por rota:
- Horário de saída e horário de retorno.
- Quilometragem no odômetro na saída e na chegada.
- Número de paradas efetivamente entregues (não as despachadas).
Duas semanas disso já dão uma média confiável de deslocamento e de atendimento. Se o seu sistema já registra horário e sequência de cada parada, o trabalho vira uma consulta em vez de um caderno — foi assim que o número de Hortolândia lá em cima apareceu.
Depois que você tiver o seu custo por parada, refaça a pergunta que começou este texto. A resposta muda a taxa de entrega, o raio de atendimento e, quase sempre, a conversa com o aplicativo que quer 25%.